Reginaldo Veloso critica “banalização da Eucaristia” e “alienação religiosa”

2012 jun 26 Padre Reginaldo Veloso - Recife Na expectativa de PENTECOSTES…

Entre outras virtudes, as celebrações do Ano Litúrgico, através da dinâmica do “memorial”, nos propiciam a vivência sempre atualizada do Mistério da Salvação, retomando, as facetas peculiares de cada Tempo, de cada Festa, e nos levando a experimentar a força da Palavra criadora e do Espírito renovador.

Ao aproximar-se, então, mais uma vez a Festa de Pentecostes, os Domingos do tempo Pascal, fazem ecoar as promessas feitas por Jesus, especialmente no Evangelho de João, do envio do Espírito da Verdade, o Advogado, o Confortador, o Consolador. Hoje, poderíamos, ao gosto da nomenclatura atual, chamá-lo também de “Assessor”!

Que venha o Espírito prometido! Aliás, sua irrupção na História, muitas vezes, se dá da maneira mais inesperada. Temos exemplos recentes e ofuscantes: a renúncia de Bento XVI e, sobretudo, a eleição de Francisco, Bispo de Roma.

E como precisamos de que esta irrupção transformadora chegue a atingir, de maneira ampla e profunda todo o Corpo da Igreja, infectado, ao longo das últimas décadas pela retomada do mais decadente clericalismo, com a sucessiva nomeação de bispos medíocres e a consequente ordenação de uma legião de presbíteros, “dotados”, ao mesmo tempo, de inescamoteável incompetência e exacerbada consciência de “poder”, pernicioso binômio, que normalmente leva à prepotência, no trato de pessoas e na gestão da vida eclesial, ao mercenarismo, ao aburguesamento e à mercantilização da vida religiosa.

O resultado lastimoso de tudo isso, em que pese a beleza e riqueza de documentos e declarações, resultantes milagrosamente de importantes assembleias, graças, sobretudo, a intervenção providencial e quase anônima de geniais assessores, é a imbecilização do Povo de Deus. Assistimos atônitos ao “florescimento” de um tipo de experiência religiosa que se propaga com a velocidade de uma praga e se consubstancia da prática das “devoções” mais esdrúxulas, que vão, da venda de água benta engarrafada e rotulada, a “missas de cura”, passando por um variado leque de “terços” e “escapulários” e “bênçãos” e “correntes” e “novenas” e “adorações” e “louvores”, bem como os ruidosos e agitados megashows, com direito a todas as bizarrices possíveis, com ampla cobertura do rádio e da televisão. Aliás, há canais de TV e rádios que se dedicam exclusivamente a esse tipo de manipulação de pessoas, o mais pernicioso “produto” da onda consumista do sistema capitalista, que descobriu na “religião” seu mais novo e ubertoso filão.

É triste e preocupante assistir à banalização da Eucaristia, expressão mais significativa da vida eclesial, à mediocridade ridícula das homilias, às aberrações com relação ao culto dos Santos e Santas, sobretudo da Mãe do Senhor, em suma, à alienação religiosa, que vem esvaziando a vida de tantos cristãos, entre outras, da dimensão de Cidadania, de compromisso sócio-político, num tempo de tanta urgência.

Enquanto isso, por onde a gente passa, escutam-se os lamentos e reclamos de gente que vem das CEBs, dos Movimentos de Evangelização de cunho libertador e das Pastorais Sociais, que já não encontram arrimo nas paróquias e dioceses e vivem uma lamentável experiência de orfandade. Praticamente entregues à própria sorte, somente à custa de muito desprendimento, de heroica generosidade e espírito de militância, conseguem perseverar, em clima de resistência, num caminho evangélico de fé, esperança e fraterna solidariedade.

É, em nome desse atual “Resto de Israel”, em nome do resgate da cidadania eclesial e social, que urge articular todas as forças vivas do que resta da Igreja renascida do Concílio Vaticano II e de Medellín, em nosso país e em nosso Continente, aproveitando, por exemplo, o ensejo das comemorações do Cinquentenário conciliar, no sentido de ver “A Alegria do Evangelho”, tão oportuna e inspiradamente anunciada por papa Francisco ir, pouco a pouco, desabrochando de um verdadeiro esforço de retomada da “primavera” que o Santo João XXIII, mais de 50 anos atrás, desencadeou qual “novo Pentecostes”.

Neste sentido, façamos a próxima Novena de Pentecostes, abrindo os olhos aos “sinais dos tempos”, e os corações, aos desafios acolhidos à luz da fé bíblica como apelos de Deus, em busca de respostas criativas, profundas, eficazes e ecumênicas, na força do Espírito Santo. Ver, julgar e agir, eis o que importa, mais que nunca.

Recife, maio de 2014

Reginaldo Veloso,

Presbítero das CEBs

Assistente do Movimento de Trabalhadores Cristãos – MTC – Região Nordeste 2

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