A Crise Global

Não restam dúvidas de que um processo de insegurança no mundo vem se agravando a cada dia. Na economia, por exemplo, o tempo é de absoluta instabilidade financeira. Nações poderosas, que a elas jamais se impunham sobressaltos, vivem diariamente inconstâncias econômicas e financeiras que exigem ajustes globais e penalizam a grande maioria da população.

Segundo relatório da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil – ANFIP, a

recessão atual é diferente das anteriores. Além da dimensão global, a crise destruiu trilhões de dólares em ativos financeiros, afetando empresas e famílias. […] e os níveis de consumo das famílias somente voltarão à normalidade depois da recuperação dos empregos, da renda, e dos altos níveis de endividamento.

O professor J. Carlos de Assis [1] destaca que a crise originou-se de um bacanal especulativa nos Estados Unidos e na Europa e os trilhões de dólares emprestados e rolados no mercado virtual revelaram-se impagáveis. Diante da quebra iminente, o Governo norte-americano, isto é, o Tesouro e o FED[2] intervieram no mercado para salvar os bancos ilíquidos. A crise financeira privada migrou para a Europa, forçando os governos locais a também intervirem para salvar os bancos.

Aqui não reside a dúvida de que as corporações financeiras, para salvar a “pele e os ossos” não pensarão duas vezes antes de se aliarem para não perderem seu capital. Ao povo restaria apenas assistir.

Relatório da Organização Internacional do Trabalho[3] (2013) alerta:

o fosso entre ricos e pobres na maioria dos países de baixa e média renda continua a ser grande. Muitas famílias que conseguiram elevar-se acima da linha de pobreza estão em risco de voltar à situação anterior.

E mais:

as desigualdades de renda aumentaram entre 2010 e 2011 em 14 das 26 economias avançadas pesquisadas, incluindo a França, Dinamarca, Espanha e Estados Unidos. Os níveis de desigualdade em sete dos restantes 12 países foram ainda maiores do que antes do início da crise.

Poderíamos aqui relembrar dezenas e até centenas de fragmentos de textos que questionam as boas intenções da “mão invisível” do mercado. Mas não o faremos. Não é o objetivo principal deste trabalho. É antes, a tentativa de colocar à mesa os tópicos de uma discussão que, sabemos, será bem longa.

As variáveis que conduziram o mundo a esta situação são inúmeras. Aqui se entrelaçam questões políticas, sociais, econômicas, culturais e outras mais. Não há um erro isolado ou um culpado específico. Há muitos erros e muitos culpados. E este não é um problema de bairro, cidade, estado ou nação. A crise é global.

Na política, por exemplo, apenas uma afirmativa parece óbvia: os padrões são os mesmos. Pessoas de todos os países, agregados em vários partidos, alguns com intenções positivas e outros com interesses absolutamente criminosos, se engalfinham em disputas que, na maioria das vezes, tem como pano de fundo a conquista do poder.

Não estou fazendo (de maneira alguma) apologia ao fim dos partidos ou instituições políticas. Até porque sou filiado ao Partido dos Trabalhadores desde 1991 e não me arrependo disso. E tenho ciência de que qualquer partido é “meio” e não “fim” em si mesmo.

Mas o uso e abuso de siglas partidárias para benefícios de pessoas ou grupos, sobretudo para favorecer o aumento dos seus patrimônios financeiro e político, são evidentes e incalculáveis. Neste caso, a autoridade política supera os interesses da população e do seu território.

É certo que as agremiações partidárias e a própria política nasceram dessa necessidade de convergir pensamentos – e assim divergir dos demais grupos – para estabelecer o que nos meios chamamos de “hegemonia”[4]. Ou seja, a prevalência do pensamento da maioria sobre a chamada minoria. Essa disputa, que teoricamente, buscaria o bem comum, praticamente estabelece uma peleja que alcança as raias da inimizade e do recorrente confronto entre os pares.

Isso acontece porque os conceitos deixam de ser solidários e a disputa passa a ser pela imposição das ideias de cada grupo. Por consequência, o conflito cega e o bem comum passa a figurar em segundo plano.

Mészáros, ao refletir o poder do Estado, em seu livro “Para Além do Capital”[5], relembra escrito de Marx

Quanto mais poderoso é o Estado e, portanto, quanto mais político é um país, tanto menos está disposto a procurar no princípio do Estado, portanto no atual ordenamento da sociedade, do qual o Estado é a expressão ativa, autoconsciente e oficial, o fundamento dos males sociais e compreender-lhes o princípio geral. O intelecto político é político exatamente na medida em que pensa dentro dos limites da política. Quanto mais agudo ele é, quanto mais vivo, tanto menos é capaz de compreender os males sociais.

Na economia, talvez a tecnologia seja a experiência mais alterada nestes vinte anos. A velocidade com que são modificados os passos na criação e recriação do sofisticado universo dos aparelhos tecnológicos é inacreditável. E a julgar pelos novos artefatos em projetos, a velocidade conduzirá a sociedade para uma situação ainda mais instável.

Celulares, smartphones, i-phone, ipad, notebooks, ultrabooks, tablets, são alguns dos elementos incorporados ao nosso cotidiano que compõem esse complexo processo de instabilidade e inconstância econômica.

Segundo análise de alguns futuristas, que apostam na tecnologia para o futuro, em 2020 haverá mais dispositivos eletrônicos do que pessoas conectadas; a transferência de dados será 44 vezes maior do que hoje; e a velocidade da banda largar aumentará 20 vezes.

Em 2030, um disco rígido será capaz de armazenar 600 anos de vídeo com qualidade de DVD, tocando sem parar; a velocidade do processamento dos computadores será a mesma do cérebro humano e a velocidade de conexão nas residências poderá chegar a 100Gbps.

Do lado social, o que se vislumbra é uma batalha desigual pela sobrevivência. Espera-se um aumento significativo da população mundial, sobretudo na Ásia e África. A expectativa é que a população do planeta passe de 8,3 bilhões em 2030 para 9 bilhões em 2050[6].

Em texto publicado no final de maio, pela Revista Carta Maior[7], o diagnóstico não parece ser tão próspero:

A fome está de volta numa sociedade que imaginava tê-la erradicado com a exuberância da política agrícola do pós-guerra, associada à rede de proteção do Estado social. […] Que meio milhão de pessoas passem fome no coração financeiro da Europa, como informa o correspondente em Londres, Marcelo Justo, nesta pág, deveria ser suficiente para afastar as ilusões na ‘solução ortodoxa’ para a crise sistêmica do capitalismo desregulado.

A tecnologia, como sabemos, é um processo natural e necessário para a compreensão e intervenção no mundo em que vivemos. A partir dela, é possível comemorar os avanços na medicina, na indústria, na agricultura e na educação. A internet é um dos veículos mais incríveis de comunicação criados neste século.

A descoberta de alternativas ao petróleo, a previsão de catástrofes ou até mesmo a recuperação de nações a partir da tecnologia é um exemplo claro de que tal fenômeno é indispensável à humanidade. Tem sido assim desde o início dos tempos.

Mas a essência da vida não é a tecnologia. Ela é apenas um meio; um elemento. A vida e os seres que nela existem são mais importantes que qualquer veículo de última geração. São os seres humanos a condição de existência do cristianismo e não os milhões de aparelhos celulares que motivam a competição no mundo do mercado.

Refletindo sobre a “Nova Natureza do Processo Tecnológico”, Leonardo Boff, no livro Civilização Planetária[8] evidencia um dos fatores que contribuem para o fortalecimento das contradições:

O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor e com quase nenhum trabalho humano. A produção excede as necessidades dos países ricos. Desfez-se a conexão produção versus necessidade. A questão é nunca deixar de produzir cada vez mais. Em razão desta lógica devem-se suscitar, mesmo artificialmente, necessidades para satisfazê-las mediante uma maior produção.

Esse paradoxo estabelecido entre o grande desenvolvimento das “coisas” e a persistência do descaso com as condições humanas têm gerado a “queima” de neurônios de muitos, sejam acadêmicos ou sábios do senso comum. E as respostas se difundem. Muitas delas são desprovidas de objetividade.

Seria prudente, diante deste paradoxo, refletir sobre as vias do comando: somos nós que estamos dominando a tecnologia e tornando-a parte comum do nosso dia a dia, ou seremos nós comandados pelo mundo dos bits, de forma suave, a ponto dela se tornar indispensável em nossas vidas? Estamos remando ou sendo levadas pelas “belas” ondas da modernidade?

Em meio à duvida, a humanidade segue na trilha do consumo, obedecendo as regras impostas pelos grupos econômicos.

É certo, no entanto, que parte da sociedade já se mostra descontente com essa lógica e alguns reagem à obediência cega. Muitas vezes as reações beiram à agressividade inexplicável.

Aqui no Brasil, por exemplo, durante a releitura e rediscussão desse trabalho, um movimento, que teve início em São Paulo, pela redução das passagens de ônibus coletivo, ampliou-se de forma tão excepcional que gerou debate dos mais variados.

Pablo Villaça[9], em seu texto postado em 15 de junho, deixou bem claro que os gritos do povo brasileiro foram além da revolta contra o aumento de R$ 0,20 centavos nas passagens do transporte coletivo na capital paulista. As mobilizações ganharam as ruas de todo país, num exercício claro da democracia.

No entanto, ele pondera a “dispersão dos objetivos”:

Assim, puxei papo com vários jovens e observei atentamente os cartazes que carregavam: ‘Pela humanização das prostitutas!’, ‘O corpo é meu! Legalizem o aborto!’, ‘Fora, Lacerda!’, ‘Viva o casamento gay!’, ‘Passe Livre já!’, “Passagem a 2,80 é assalto!”, “Pelo fim da PM no Brasil!”, “Cadê a Dilma da guerrilha?”, “Fuck you, PSTU!”, “Aécio NEVER!”, “Não à Copa no Brasil!”

Em artigo publicado em 28 de junho[10], Frei Betto, escritor, autor de grandes exemplares brasileiros como “A Mosca Azul – reflexão sobre o poder” e “Batismo de Sangue”, destacou que as autoridades estavam desafiadas a “deixarem a torre de marfim, largarem os binóculos centrados nas eleições de 2014 e pisarem na realidade”.

E conclui:

O óbvio, entretanto, é a falta de esperança desses jovens que carecem de utopias e, quando não se refugiam nas drogas, não sabem ainda como transformar sua indignação e revolta em propostas e programas políticos.

Os objetivos de toda mobilização não podem e não devem ser balizados apenas por estes poucos fragmentos aqui citados. Mas estas considerações devem fazer parte de nossa reflexão sobre os passos que estão sendo dados na busca do ideário popular:

Relembremos:

Os acontecimentos por mais contestáveis que possam ser, são consequências lógicas de fatos precedentes. Na verdade, o que acontece em nosso meio, nos bairros, nas periferias, nos mais distantes interiores, bem como nos grandes centros urbanos do nosso país, e atualmente no mundo inteiro, está intrinsecamente ligado pelos mais diversos fatores”. (página 13)

O Papa Francisco, durante entrevista a uma emissora de TV[11], criticando a idolatria do dinheiro no mundo atual destacou os idosos e jovens como dois extremos que separam o pensamento central do mundo capitalista desumano.

Dada a sua profundidade e sensibilidade, faço questão de traduzir os termos dessa conversa.

Quando reina no mundo a feroz idolatria do dinheiro, se concentra muito no centro, e as pontas da sociedade, os extremos, são mal atendidos, não são cuidados, são descartados. Até agora vimos claramente como se descartam os idosos. Há toda uma filosofia para descartar os idosos. Não servem. Não produzem. Os jovens também não produzem muito. É uma carga que precisa ser formada. O que estamos vendo agora é que esta ponta, a dos jovens, está em vias de ser descartada.

O alto percentual de desemprego entre os jovens na Europa é alarmante. Não vou enumerar os países da Europa, mas vou citar dois exemplos de dois países da Europa com problemas sérios de desemprego. Um tem um índice de desemprego de 25%. Mas nesse país, o índice de desemprego juvenil é de 43% a 44%. (…) Outro país tem um índice de 30 pontos percentuais de desemprego geral, enquanto o desemprego entre os jovens já passou de 50%.

Nós vemos um fenômeno de jovens descartados, então para sustentar esse modelo político mundial, estamos descartando os extremos, curiosamente, os que são promessa para o futuro, porque o futuro quem nos vai dar são os jovens, que seguirão adiante, e os idosos que precisam transferir sabedoria aos jovens. Descartando ambos, o mundo desaba.

Notem que o que dissemos há vinte anos nos coloca diante do óbvio: estamos vivendo e assistindo às consequências das nossas atitudes. Interferir ou não é decisão de cada um. E se a decisão é interferir, que seja por completo e não apenas por um ato.

Será uma questão de natureza?

O conceito de sistema, seja ele de qualquer natureza, é algo complexo, que exige dedicação quase que exclusiva no pensar e no agir. Em certos casos, estes projetos incluem variáreis que estão muito além de nossa capacidade racional. Podem envolver, por exemplo, a natureza humana.

Vou tentar ser mais objetivo: será que no mundo persiste a desigualdade, que divide milenarmente as classes sociais entre pobres e ricos, porque é uma questão da natureza humana? Será que a atitude de “passar por cima do outro” é impossível de ser separada da nossa natureza?

É possível que estas perguntas e suas respostas escorram para o mundo da filosofia, o que nos levaria a um aprofundamento demasiado desta questão. Mas, repito, não é nosso objetivo agora. Mas refletir sobre estes e outros temas acredito ser fundamental.

Se descobrir os culpados pela crise atual é tarefa dificílima e, quem sabe, quase impossível, talvez o diálogo mantido por Paulo Freire com alunos camponeses[12] possa nos ajudar a descobrir de quem não é a culpa pelos problemas atuais.

Depois de um breve e importantíssimo jogo de perguntas e respostas com seus alunos do EJA, que embora terminado com empate, os camponeses ainda se viam menores em conhecimento do que o professor. Paulo Freire perguntara, estrategicamente:

‒ Por que eu sei e vocês não sabem?

‒ O senhor sabe porque é doutor. Nós, não.

‒ Exato, eu sou doutor. Vocês não. Mas, por que eu sou doutor e vocês não?

‒ Porque Foi à escola, tem leitura, tem estudo e nós, não. ‒ E por que fui à escola?

‒ Porque seu pai pôde mandar o senhor à escola. O nosso, não.

‒ E por que os pais de vocês não puderam mandar vocês à escola?

‒ Porque eram camponeses como nós.

‒ E o que é ser camponês?

‒ É não ter educação, posses, trabalhar de sol a sol sem direitos, sem esperança de um dia melhor.

‒ E por que ao camponês falta tudo isso?

‒ Porque Deus quer.

‒ E quem é Deus?

‒ É o pai de nós todos.

‒ E quem é pai nesta reunião?

Olhando o grupo atentamente, Paulo Freire perguntou a um dos camponeses:

‒ Quantos filhos você tem?

‒ Três.

Nesse exato momento, o diálogo esperava apenas a última pergunta do professor que vai revelar para aqueles camponeses – e agora para nós – o que muitos ainda não foram capazes de entender.

‒ Você seria capaz de sacrificar dois deles, submetendo-os a sofrimento para que o terceiro estudasse, com vida boa, no Recife? Você seria capaz de amar assim?

‒ Não.

‒ Se você, homem de carne e osso, não é capaz de fazer uma injustiça desta, como é possível entender que Deus o faça? Será mesmo que Deus é um fazedor dessas coisas?

Conclusão:

‒ Não. Não é Deus o fazedor disso tudo. É o patrão!

Pelo transcorrer desse diálogo me parece bastante claro que o discurso de atribuir a Deus a culpa por muitos dos males é absolutamente utilizado para legitimar as injustiças e, assim sendo, quem o fizer, ainda que inconscientemente, tende a conduzir as pessoas para o desânimo, à aceitação passiva das desigualdades e, consequentemente, descrente no futuro.

É preciso, portanto, evidenciar que não haverá mudanças nas relações atuais se predominar este desencanto com um mundo melhor.


NOTAS

[1] (*) Economista, professor de Economia Internacional da UEPB, autor, entre outros livros, do recém-lançado “A Razão de Deus”, pela editora Civilização Brasileira. Esta coluna sai também nos sites Brasilianas e Rumos do Brasil, e, às terças, no jornal carioca “Monitor Mercantil”.

[2] Banco Central dos Estados Unidos é o FED. FED significa Federal Reserve System, mas é muitas vezes abreviadamente designado por Federal Reserve.

[3] http://www.oit.org.br/content/recuperacao-desigual-do-emprego-e-desafio-para-maioria-dos-paises

[4] É denominada hegemonia a supremacia de uma entidade sobre outras de igual tipo.

[5] “Como poderia o Estado Fenecer?”, ver página 564.

[6] http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u395708.shtml

[7] http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=1257

[8] Ver página 15

[9] http://www4.cinemaemcena.com.br/diariodebordo/?p=3050

[10] http://www.brasildefato.com.br/node/13378

[11] Ver Entrevista Globo News, divulgada em 28 de julho de 2013.

[12] Pedagogia da Esperança, página 25.

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