O Papel da Cultura

Os anos 90 – quanto eu já respirava os trinta anos de idade – foi bastante fértil na composição de músicas que revelavam os ideias aprendidos, sobretudo, na ACO[1] e no convívio com o padre Geraldo.

Certo dia, saí de Escada para Recife com o objetivo de visitar a exposição “Viúvas da Seca”, que acontecia na Galeria Metropolitana, no centro do Recife. O que vi, provocou a mesma indignação que fizera com que anos antes tivesse escrito “Rebeldia”.

Em outra parceria com Sebastião Ferreira, fiz então o seguinte poema com o título “Viúvas da Seca” que, mais tarde, seria cantado no Festival de Música da Universidade Católica de Pernambuco, pelo grande parceiro Edy Levino.

Vou fazer do meu canto oração
Pra que todos escutem o pedido
Desse povo do nordeste partido
Que precisa de urgente solução
Venham todos pra grande procissão
Acordando o nordeste pra mudar
Esta sina de enterros a passar
Pois ninguém neste chão suporta a fera
E a porteira da vida nos espera
Pras viúvas da seca vou cantar

Esperança é seu nome sua história
Tá na simples maneira de vestir
Subvida tentando resistir
Acordando o morcego da memória
Da janela uma vista tão inglória
A espera aumenta a solidão
E a batida rasgando o coração
Entristece a cama já vazia
A loucura nos olhos principia
Nas viúvas da seca e do sertão

Quase sempre a panela tá vazia
E a parede segura sua fé
É a certeza esperança da mulher
Que se faz renascer todos os dias
De manhã reza um terço pra Maria
Mão na enxada e corre pro roçado
Nunca esquece os seus filhos do lado
Vai plantando na terra outra estação
Mas a dor é o parto desse chão
Pras viúvas da seca e do arado

Só espero que entendas minha senhora
Sou teu filho, te amo e vou ficar
Te ofereço meu canto, meu sonhar
Minha luta e o desejo que embora
Sendo apenas um gozo na memória
Refloresça unidos na magia
De um nordeste em perfeita romaria
Com as viúvas da seca do sertão
Mude a história tão rica em contramão
Pra dançar livremente a cantoria

Em janeiro de 2013, depois de uma longa jornada de oposição e proposição alternativa aos órgãos do poder público, fui convidado a exercer o cargo de titular na Secretaria Executivo de Cultura de Escada, num governo liderado pelo socialista Lucrécio Gomes.

A tarefa não seria fácil. Tinha convicção disso. Primeiro, porque a administração eleita, embora formada por uma ampla união de partidos, não tinha o viés socialistas defendido pelo PT.

Segundo, porque a cultura no município fora condicionada a ser vivida enquanto eventos de massa. Não havia legislação sobre a proteção e preservação do patrimônio histórico do município; a Associação Multicultural dos Artistas Escadenses (AMAE), que propunha garantir apoio aos fazedores de cultura da cidade estava desarticulada.

A cultura nem era racional nem apaixonada. Ela flutuava entre as vontades e decisões do prefeito anterior e os interesses comerciais por trás das contratações. Um erro capitalista que provocou uma regressão histórica de caráter imensurável.

O princípio da disputa eleitoral superava os projetos e as políticas públicas na área cultural. As tradições populares, num curto espaço de tempo, foram enterradas para dar espaço à cultura das massas. O foco das atividades foi centralizado e a vontade do prefeito se sobrepôs ao desejo do povo.

Importante aqui esclarecer que essa disputa política não era permeada pelas ideias, mas pelo grito; não se baseava nos caminhos da razão, mas se sobrepunha no desequilíbrio emocional das pessoas. Escadenses perderam a tranquilidade; muitos deixaram a amizade; e a influência do poder “externo” ganhou força contra os filhos da mesma terra.

Uma mistura de amor e ódio se espalhou nos corações e criou uma barreira que somente o tempo poderá desfazer. Leonardo Boff, em 1999, ao reescrever e refletir sobre “A Oração de São Francisco” citou:

Santo Agostinho projetou sua concepção da história universal sobre essas duas forças poderosas: o amor que leva até à morte do eu por causa do outro e o ódio que leva à morte do outro por casa do eu. O amor funda a Cidade de Deus, onde os humanos se sentem integrados como um grande útero. O ódio funda a cidade de Satanás, onde os humanos se entredevoram como numa prisão.

Mas, independente dessa rivalidade exagerada e do descaso com a cultura da cidade, entendemos naquele momento que o maior desafio seria reunir as pessoas e discutir uma simples pergunta de resposta absolutamente complexa: o que nós queremos para a cultura de Escada?

Não cabia mais a simples crítica sobre o poder público. Competia agora colocar em prática a teoria e o aprendizado de anos na Ação Católica Operária; de décadas de conhecimento no exercício do magistério; a responsabilidade de honrar as parcerias firmadas com amigos que já se foram – citamos aqui Vicente Fernandes, João Fragoso, Padre Geraldo e Edelazil Mendes – e outros que ainda persistem os quais não citarei para não cometer injustiças.

Ainda que o cargo de Secretario Executivo não possibilitasse a capacidade ampla de redirecionar o papel do “Estado” ao qual nos referimos, era um espaço que dava asas à imaginação e ao exercício de uma pequena parcela de poder.

Existia o risco iminente de um prejuízo político caso não fosse possível implantar as ideias que movimentavam minha mente. Mas entre correr o risco ou deixar que as coisas continuassem do mesmo jeito, optei pela primeira alternativa.

Além do mais, tenho a impressão de que a cultura tem uma dimensão tão significativa de formação das pessoas que entendo como equívoco transformá-la em apêndice da educação. Maioria dos municípios desenvolvidos já reconhece a cultura com uma diversidade tão grande de produções e criatividade que a ela não cabe somente o papel de suporte educacional. Mas acredito que o tempo tratará de alterar essa forma.

 

O conceito de cultura

O conceito de cultura é vasto e complexo. Sabemos disso e temos a clareza de que sua definição vai além dos limites do conhecimento, da arte, das crenças, da lei, da moral, dos costumes, dos hábitos e das aptidões.

A cultura se inter-relaciona com todos os segmentos da sociedade. Quando a postura das nossas escolas é ter um professor no quadro e dezenas de alunos sentados, enfileirados e com o olhar direcionado ao professor, isso é um comportamento e, portanto, cultural.

Se estamos numa fila de banco e passamos horas sem atendimento e não reclamamos, isso é um comportamento nosso e, da mesma forma, é uma atitude (ou falta dela) cultural.

Quando diante de uma situação difícil declaramos que “a coisa tá preta!” é uma forma embutida de estabelecer, culturalmente, um preconceito enraizado em nossa formação.

Quando políticos saem vitoriosos de uma campanha eleitoral porque “beneficiaram” o povo com doações ou vantagens diretas, temos a clara revelação de uma cultura paternalista na qual as pessoas esperam que os outros façam por elas.

A exposição do corpo da mulher vinculado a alguma marca ou produto, já se estabeleceu como fator decisivo para a expansão do mercado no início do século XXI.

Seria possível que todas as pessoas trabalhassem a noite e descansassem durante o dia? Claro que sim. Mas, tradicionalmente (e, portanto, culturalmente), escolheu-se a noite para o descanso. Sai, inclusive, mais barato.

Quando uma igreja abre mão do seu patrimônio histórico e se entrega aos caprichos da suposta “modernidade”, estampando o brilho dos porcelanatos, isto deve-se ao conceito atual de que as pessoas só se interessam pelo novo e “belo” e, neste caso, o antigo é feio, inadequado ao tempo e, portanto, condenado à destruição.

As redes sociais, por exemplo, alteraram de forma significativa o comportamento das pessoas. Sair de casa sem o celular transformou-se numa situação complicadíssima na vida de bilhões de pessoas. Se no meu tempo de criança as brincadeiras socializavam os equipamentos, hoje, pelo contrário, o equipamento individualiza as crianças e as pessoas se relacionam muito mais virtualmente do que presencialmente. Todos estes fenômenos são culturais.

Se numa casa existem aparelhos de TV espalhados por todos os cômodos, isto deve-se a uma cultura que individualiza o conjunto familiar, isola as pessoas e desfaz o principal grupo que dá sustentação à história e à tradição. Isto, por mais simples que pareça, trás graves consequências para a sociedade. E, da mesma forma, também é cultural.

Se quiséssemos, passaríamos horas descrevendo fatos, ações, comportamentos e estilos que têm relação direta com as mudanças culturais da sociedade contemporânea. Percebam que o universo cultural perpassa toda a realidade vivida por cada um de nós. Cada gesto, cada atitude, cada postura é fruto de uma variável cultural.

O que se precisa discutir nesse fenômeno é se as mudanças de comportamentos da atualidade contribuem para a melhoria de vida no planeta. Quais atitudes sugerem melhorias no convívio da humanidade?

Nas comemorações dos 139 anos de emancipação política de Escada em 2012, por exemplo, a prefeitura contratou duas atrações “importadas” que, sozinhas, levaram R$ 300 mil reais dos cofres do município: a banda “Saia Rodada”, que custou R$ 120 mil e o grupo “Parangolé”, que subtraiu nada menos que R$ 180 mil.

É certo que o público, diante do grande evento de “cultura de massa” quedou-se extasiado de tanta alegria e, certamente brindaram a noite como se fosse a última. Mas não foi.

Terminadas as duas apresentações, Escada ficou mais pobre. Sem os R$ 300 mil, sem as atrações do momento e com uma juventude absolutamente passiva diante no tempo.

Pergunta: Qual o investimento mais útil para cumprir a responsabilidade social e cultural do poder público: gastar R$ 300 mil com duas horas de apresentação de uma banda que está no topo das paradas musicais, ou financiar um projeto de um ano que terá como resultado a formação de pelo menos uma centena de crianças e jovens?

Para aqueles que gostam, peço desculpas. Mas considero aquele gasto – e tantos outros com o mesmo perfil – um crime contra o patrimônio público.

No mesmo ano os investimentos em Patrimônio Histórico e Artístico, Fomento ao Trabalho, Empregabilidade, Proteção e Benefício ao Trabalhador, Assistência ao Portador de Deficiência, Habitação Rural, Saneamento Básico Rural e Urbano, Desenvolvimento Científico, Promoção da Produção Vegetal e Animal e outros tantos investimentos essenciais foram reduzidos a zero. Repito: zero[2]!

O gasto com assistência ao idoso foi de R$ 6 mil reais durante o ano todo. Se um terço dos R$ 300 mil, levados pelas atrações de fora, fossem destinados aos idosos de dentro da cidade, Escada teria hoje uma das melhores políticas públicas do estado de atenção aos cidadãos e cidadãs da melhor idade.

E destaco: o questionamento aqui é simplesmente financeiro. Não estou levando em consideração os apelos sexuais das bandas (ou bundas); não trato das letras que enxovalham a imagem da mulher; não cito o estímulo à bebida que quase sempre está associado aos momentos de entretenimento propostos por estes grupos estilizados.

O argumento é puramente lógico-financeiro: se coubesse a um pai ou mãe de família, com um mínimo de respeito e amor aos seus filhos, decidir onde investir essa quantia, não tenho a menor dúvida de que a preferência seria pela formação musical das crianças; seria pela qualificação dos jovens; por mais recursos para os portadores de deficiência; optariam por ter ruas saneadas; ficariam felizes em ver seus filhos e filhas mostrando em feiras de conhecimentos a capacidade científica de sua amada prole.

E aqui destaco outra preocupação: o maior problema destes estilos não está naquilo que é aparente; está no que não se vê; no que não se percebe e que se fortalece no subconsciente das pessoas.

Ao invés de cultura de massa, o poder público deveria financiar de forma significativa a cultura popular. A cultura que nasce das ruas, do povo, das famílias. E Pernambuco é bastante rico nesse aspecto. É preciso estabelecer, portanto, diferenças entre cultura e entretenimento.

Não há como falar dessa cultura popular sem reconhecer a inteligência, a dedicação e a capacidade radical de Ariano Suassuna. Certamente a partir dele o conceito de cultura em Pernambuco e no mundo tem outro valor; outra visão.

Suassuna, como ninguém, deixa claro em toda sua obra que as pessoas devem separar a cultura de massa da cultura popular. Para ele, “cultura de massa não é o mesmo que cultura popular”. Ainda que de forma geral, mas com um conceito enraizado em seus estudos, o paraibano conclui.

A cultura é uma coisa muito importante para o país e para o povo. Se a gente abre mão da nossa cultura, a gente abre mão da nossa identidade e a gente pode perder até a nossa independência.

A I Conferência Municipal de Cultura de Escada, realizada nos dias 07 e 08 de agosto de 2013, no prédio da FAESC, foi um marco – e ainda será reconhecida como tal – na vida cultural de Escada. Não porque reuniu uma grande quantidade de artistas (compareceram 173 pessoas), mas porque abriu espaço para a democratização do debate sobre a produção cultural no município. As propostas surgidas durante o processo, nascidas tanto das mentes de jovens estudantes como dos sonhos de antigos protagonistas da cultura local, alinharam todos os pensamentos na necessidade de se fazer cultura para a formação do ser humano.

De certa forma, percebi durante plenária de apresentação dos resultados, um pouco da sugestão que fiz nos escritos de vinte anos atrás:

“todos os movimentos organizativos precisam debater os novos caminhos e os novos horizontes. E precisam ter a convicção de que a mudança não partirá das elites e muito menos dos profissionais da política. A mudança será obra da sociedade, a partir do momento em que esta entender as suas capacidades, ocupar os espaços de forma organizada e assumir o compromisso revolucionário”. (página 29)

Mesmo que resumidas às poucas discussões sobre cultura, o momento de integração social, de união das ideias, possibilitou o exercício prático do que tinha apenas por teoria nos ideais do passado.

Todos nós temos clareza de que a simples realização da conferência não será suficiente para alterar os caminhos da cultura. Mas sem dúvida o primeiro passo fora dado. Compete agora a todos (e não apenas ao poder público) fiscalizar as ações propostas durante o evento. E creio que isso será possível se as pessoas reconhecerem a importância da cultura na formação da sociedade.

Buscando a solidariedade de muitos

A participação direta das pessoas em um governo não diminui a importância do poder instituído. Ela amplia esse significado na medida em que democratiza as decisões sobre a coisa pública. Ora, se é o povo quem elege os governantes e parlamentares, esse mesmo povo tem a capacidade e o dever de ajudar, de decidir o que os eleitos devem fazer. O povo não exercerá o papel de “ajudante”, de “colaborador” dos governos. Ele será peça essencial e indispensável nessa engrenagem.

Eu creio que em nossas cidades as pessoas interessadas em construir caminhos alternativos para a gestão pública deveriam se reunir para elaborar propostas concretas de ação.

Vou dar um exemplo. Se juntássemos cinco pessoas para discutir teórica e praticamente o papel da cultura, estaríamos criando uma pequena rede que, caso queira, se institucionalizaria enquanto grupo e o resultado dessa discussão seria a elaboração de uma carta com as principais diretrizes para a cultura local. Claro: cinco pessoas não podem e não devem determinar o que milhares de outros devem ou não fazer. Mas, democraticamente, é permitido a este grupo revelar seus pensamentos e ideias. Isto é constitucional.

Até aí, do ponto de vista material, o que se tem é apenas um papel redigido e assinado por estas pessoas. No entanto, a partir do universo das ideias, temos um conjunto de aspirações que, certamente, serão absorvidas por muitos. Outros desejos se agregarão às proposições ali definidas.

Detalhe importante: para que o planejado seja efetivamente executado, o grupo não pode se dispersar. A reunião, a discussão, a construção das propostas, a elaboração do documento, a realização do fórum e a entrega às autoridades locais são passos que compõem apenas o início da empreitara. Entre este passo e a consecução dos objetivos há uma enorme distância, que tende a diminuir à proporção que os objetivos forem sendo alcançados.

Entendamos que, como disse há vinte anos,

“se todas as táticas e estratégias são pensadas por homens, a capacidade de reversão desse processo é possível acontecer também por atitudes de homens, mulheres e crianças, todos ativos nesta mesma coletividade. Se esta situação deve-se aos raciocínios inteligentes de alguns humanos, outros homens podem, dessa forma, reverter esse quadro”. (página 35)

Convém aqui destacar que os passos seguintes nessa tarefa devem ser discutidos e pensados pelos atores no processo. Como sabemos, não há remédio pronto nem caminhos definidos. Há horizonte, que embora pareça nunca o alcançarmos, sempre caminhados em sua direção.

E se já fora dado o primeiro passo de organização e planejamento das estratégias, agora a exigência é que as reivindicações estabelecidas pela comunidade entrem na pauta das autoridades constituídas. Não da forma que estes culturalmente desejam, mas no tamanho e nas condições que o consenso permite.


NOTAS

[1] Ação Católica Operária, atualmente denominada Movimento dos Trabalhadores Cristãos (MTC)

[2] www.contaspublicas.caixa.gov.br Acessado em 25 de julho de 2013.

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