O que temos pela frente?

O refrão do hino “O Profeta”[1], cantado no período quaresmal da Igreja Católica, reafirma uma necessidade básica da humanidade:

Tenho que gritar,
Tenho que arriscar
Ai de mim se não o faço
Como escapar de ti, como calar
Se tua voz arde em meu peito!

Se tomarmos por ensinamento a revolução contida no refrão do hino, teremos a convicção de que não é a espera o remédio para a construção dessa nova sociedade que desejamos.

Bem sabemos que os caminhos alternativos nem sempre são empolgantes. O mais comum e mais cômodo é continuar vivendo e fazendo o que muitos fazem.

Não é producente “nadar contra a corrente”, dizem uns; “Se não podes vencer o inimigo, te junta a ele”, revela outra máxima popular; “Ruim com ele. Pior sem ele”, cedem confessos outros populares às investidas dos poderosos.

Por outro lado, também sobrevivem – felizmente – muitos esperançosos. Pessoas que persistem na confiança, se mantêm perseverantes e não cedem à fatalidade ou ao desestímulo. Outros “Paulos Freires” se entregando à pedagogia da esperança.

Quero aproveitar para dividir com vocês um pedaço da esperança vivida na década de 90 aqui em Escada. Numa bela parceria construída com o amigo Sebastião Ferreira, lançamos a música “Rebeldia”, um misto de poesia e fé que seria interpretada por Edy Levino, o grande “Do Doce”, no festival de música Canta Nordeste. A música ficou classificada entre as dez melhores de Pernambuco.

Dedico aqui a letra da música a todas e todos devotos da esperança.

Ouvi, ouvi um gritar de luta
Eu vi, vida vai chegar
Ouvi, ouvi justa rebeldia
Eu vim, eu vim pra ficar

Eu já toquei o canto do divino
Já fui riso pra menino
Já dancei baião
Mas sempre vejo o fim de tantas vidas
Sem o pão e sem a terra
Quanta maldição!

Escrevo um verso, faço a cantoria
Esperança é o que vadia
No meu coração.
E vou seguindo a minha utopia
Espalhando a mensagem
Junto à construção

No altar da noite bela
Ouço o choro de Maria
Que consola a longa espera
Enquanto não chega o dia

Vê se desperta, povo brasileiro
Que esses homens do dinheiro
Não têm solução
Parte pra luta, junta a tua gente
Que a mudança dessa história
Tá na nossa mão

Sonha comigo, esse sonho lindo
Enfeitado com a alegria
De toda nação
A criança, o pai, a mãe amada
Todo o povo reunido
Canta esse refrão:

No altar da noite bela
Vejo o riso de Maria
É o final da longa espera
Começou nossa alegria

O sentimento exposto nesta letra e em sua melodia não é parte isolada do pensamento do mundo. Outros tantos artistas da vida comungam dessa mesma esperança que ousamos demonstrar nos últimos 20 anos. Citemos como exemplo dois deles: Cristóvam Buarque e Nelson Mandela.

Buarque, na tentativa de simplificar o sonho e facilitar sua compreensão, escreveu:

Lute pelos direitos daqueles que ainda não nasceram. Não aceite deixarmos para eles um mundo pior do que o que recebemos de nossos antepassados. Faça o possível para que no mundo deles haja mais flores, mais harmonia, as baleias continuem donas do mar ainda azul, os pássaros donos do céu ainda azul, e os seres humanos continuem falando em todos os seus idiomas, e com mais entendimento. Reaja ao suicídio que parece tomar conta da humanidade[2].

Em seu discurso de posse em 1994, o líder sul africano Nelson Mandela nos dá sinais dos possíveis caminhos a serem trilhados e destaca que nossas atitudes podem servir de luz para outras pessoas. Revejam o texto:

Nos perguntamos: ‘Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível?’ Na verdade, quem é você para não ser tudo isso?…Bancar o pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você. E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo.

O Papa Francisco nos escreve que

os vários e graves desafios econômicos e políticos que o mundo contemporâneo enfrenta exigem uma corajosa mudança de atitudes, que restitua ao fim (a pessoa humana) e aos meios (a economia e a política), o lugar que lhes é próprio.

Para exercer esse novo pensamento alternativo, é preciso transformar a nossa prática individualista; respeitar os princípios éticos da vida, propondo a todos o direito de nela viver e conviver; construir em conjunto com os explorados e excluídos as ações concretas nas áreas de saúde, educação, habitação, lazer, e todos os outros princípios necessários do viver dignamente, com vistas a redefinir a nossa real utopia de sociedade.

Da mesma forma que em 1993, refaço os questionamentos que moviam e ainda movem os desejos de muitos em construir uma sociedade melhor:

“Quem ajudará na construção de uma alternativa de vida? De onde surgirá a esperança que move os caminhos da transformação de nossa realidade? […] Você gostaria de participar da construção de uma nova sociedade? Você é capaz de perder o seu desânimo histórico e acreditar na possibilidade de transformar essa miséria, através de procedimentos lícitos por parte de homens e mulheres, justos? Se todas estas pessoas juntassem suas capacidades e inteligências, num mesmo objetivo, acredita que todos definiriam, se assim quisessem, um novo caminhar, trilhando mais rapidamente para o horizonte da esperança e, por assim dizer, da utopia? (página 35)

Ainda que estas respostas não sejam alcançadas ao final deste livro, a reflexão sobre elas pode nos ajudar a entender que as coisas não acontecerão se ficarmos apenas esperando que Deus resolva por nós. A responsabilidade é de todos.

Diante disso, são muitos os desafios a serem enfrentados no momento e longa é a caminhada para a possível transformação. Uma caminhada que tenha rumo certo e direção específica no sentido de unir e nunca dividir.


NOTAS

[1] Nº 26 no livro Loas e Lamentos, lançado pelo Pe. Geraldo Leite Bastos, primeiramente em 1973, no Distrito de Ponte dos Carvalhos, Cabo de Santo Agostinho e em 1984 em nossa querida Escada.

[2] Ver página 35 do livro “Reaja”

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